NUM DIA DE FAMA

 

NUM DIA DE FAMA

          Eu tinha  ficado famosa, de uma hora para outra, todos queriam saber sobre minhas poesias. Bateram à minha porta, era um conhecido jornalista pedindo uma entrevista. Ele me convidou para acompanhá-lo até um restaurante em um grande Shopping próximo a minha casa. Eu aceitei, perguntei se fariam gravações, ele que sim, então pedi para ele esperar um pouco, precisava me trocar e passar um batom. Quando eu estava pronta, saímos caminhando pela rua, estávamos distante umas cinco quadras do local aonde íamos.

          Conversávamos, quando ele lembrou de um detalhe importante, precisava de fotos da minha infância... Disse-lhe que as tinha em casa e que eu poderia voltar e pegá-las, enquanto isso ele poderia ir escolhendo uma boa mesa no restaurante. Ele foi, eu voltei.

          Cheguei em casa, peguei as fotos e saí rapidamente, quando fechei a porta percebi que havia deixado a chave lá dentro. No portão estava chegando a mãe da minha mãe e queria entrar. Expliquei-lhe a situação e logo apareceu o cunhado da minha irmã dizendo que gostaria de me entrevistar. Eu perguntei por que, se ele nem era jornalista? Ele respondeu dizendo que era só curiosidade, que quando algum amigo fica famoso todos querem saber um pouco mais sobre ele. Disse-lhe que estava bem, mas marcarcármos um almoço para outro dia, então eu daria a entrevista, porque hoje eu já havia marcado uma.

           Pedi que ele ajudasse a vovó pulando uma janela que estava aberta e pegando as chaves que estavam lá dentro. Fui dando tchau e saí. No caminho andando rápido eu carregava o envelope com as fotos numa das mãos. Ao passar próximo a um muro, um gato saltou no meu braço e pegou com a boca os meus dedos. Sensação estranha, não machucava, mas aquele gato estava grudado na minha mão, eu o espantava, mas parecia inútil, ele não saía. Então vi sobre o muro uma garrafa de cerveja e uns copos descartáveis, servidos pela metade. Fiz o gato que estava grudado em mim, beber cerveja goela abaixo. Pensei assim. Ou engasgo ou dou um porre neste bicho. Ele parecia feroz, mas não me machucava, eu fiquei algum tempo ali tentando me desvencilhar do felino.

           Até que consegui e retomei o meu rumo em direção ao restaurante... As fotos estavam intactas. Chegando lá eu tive uma surpresa, uma fila enorme de pessoas tentando entrar e alguns seguranças fortes procuravam manter a ordem no local. Eu andei em direção a porta onde estava o homem que controlava a entrada. Falei que meu amigo já estava lá dentro e que eu precisava dar uma entrevista. Ele olhou para mim e disse: - Ta lotado! Eu falei: - Mas eu preciso entrar. O diálogo era curto e seco, até que ele perguntou se eu queria autógrafo também. Eu perguntei: - Autógrafo de quem? Então ele falou o meu nome e não acreditou quando lhe disse que esta era eu. - Não pode ser, ela está lá dentro, por que você acha que está todo esse povo aqui? - Bom, então quem sabe você vai ver se eu estou lá dentro, argumentei. Ele olhou para mim e disse: - Ta me tirando pra bobo? Eu não acreditava, era um diálogo surrealista, ele gargalhou quando lhe disse que eu estava falado sério. Então lembrei do envelope, abri e mostrei as minhas fotos, ele olhava e duvidava, às vezes olhava e achava que era, outras vezes não...

           Até que ele se convenceu que aquela era eu mesma e me deixou entrar. Neste momento eu estava um pouco tímida, com medo de sei lá o que aconteceria naquele restaurante. Mas olhei para frente e fui. Meu amigo que já me esperava ansioso perguntou por que eu havia demorado tanto? Não achei que valesse a pena naquele momento lhe contar sobre a vovó e sobre o gato, então o deixei sem reposta. Tinham câmeras gravando a gente e muitas pessoas curiosas comigo, cada uma trazia um livro meu nas mãos. A entrevista foi boa, o almoço eu nem toquei e não larguei a caneta distribuindo autógrafos e muitos sorrisos, estávamos em um ambiente feliz como nos sonhos.

Altre opere di questo autore