A VOVO ENTERRADA

 

A VOVÓ ENTERRADA

A menina acordou e foi correndo olhar pela janela. Lá no fundo do páteo estava sua avó enterrada com a cabeça para fora. Como pode ser isso? A velha senhora estava imóvel com a cabeça coberta de gelo do castigante inverno dos pampas. Naquela manhã, os pássaros, as pessoas, as árvores, a avó da menina estavam envolvidos num profundo silêncio.O silêncio fantástico de quem é enterrado de cabeça para fora, que vê todos o cotidiano passar aos seus olhos e não consegue mover nenhum músculo, ao chegar a madrugada o sono de uma vez consumar o sonho. A menina preocupada, vai até o banheiro e pega uma toalha para enxugar a avó congelada. Ela a trata com carinho e uma ternura original, seca com cuidado o gelo da madrugada depositado na cabeleira branca da simpática senhora que parece feliz e satisfeita com os mimos da preciosa neta. A garota olha com o ar de quem percebe estar faltando alguma coisa. Afasta-se para ver melhor a avó toda escabelada exibindo uma expressão um tanto sem graça. Rápido como uma flecha, corre de volta ao banheiro e pega uma escova para dar um jeito nisso, depois penteia pacientemente o cabelo da sua avó vaidosa. É incrível como os inocentes e anciões atraem-se, e quando se tocam parecem que provocam uma luz tão forte que ficam cegos de amor e só curam-se quando chega a madrugada e a vontade do descanço. O descanço é terno, assim como a pureza. Pronto, os cabelos da vovó estavam bem penteados e escorridos, nisso, o silêncio daquela manhã fria foi rompido por um grito que anunciava: _ Cecília o café está pronto! A menina deu um beijo no rosto da avó e foi correndo para a mesa. Mas antes de sair para ir a escola ela voltou no fundo do páteo e colocou uns óculos no rosto da senhora, dizendo: Ja ia esquecendo... senão tu não enxerga direito né vó? A velha pareceu fazer uma expressão de concordância enquanto a menina despedia-se: _ Tchau vó, o orelha não vai deixar nenhum passarinho sentar na sua cabeça, tá bom? Ela chamou um cahorro preto, peludo, com orelhas grandes e disse-lhe para sentar e cuidar da vovó. Já era quase meio dia, o sol estava à pino, Cecília chegou da escola, largando seus cadernos em um banco e foi logo ver como sua avó estava, chegou passando a mão sobre a cabeça da velhinha comentando: _ Puxa vó, tua cabeça tá pelando! Foi quando a vovó enrrugou a testa tentando olhar para cima e silenciosamente concordar com a garota. _ Espera um pouco, vou ver o que posso fazer! Ela guardou os cadernos no quarto e foi falar com o seu pai que estava vendo TV. _ Pai, me empresta um chapéu? _ Para que tu queres um chapéu? _ Para proteger a cabeça da vovó! _ Mas a vovó está morta, ela não precisa de um chapéu. _ Precisa sim, deixa que eu cuido dela, mas me empresta o chapéu? _ Tá bom, pega o claro, que tem a aba mais larga e esquenta menos! _ Obrigado papai! De volta a cova da avó, Cecília trazia além do chapéu, um garda-sol florido. _ Olha vó, ficou lindo este chapéu para ti. E esse guarda-sol que maravilha viu? Ela o abriu e formou-se a sombra sobre a cabeça da senhora, amenizando os raios solares do meio dia e deixando a velhinha mais aliviada. _ Vovozinha, agora tenho que almoçar, tu queres que eu traga um pouco pra ti? A velha esboçou um leve sorriso a esta proposta convidativa. Lá vinha a menina, faceira com um prato de comida na mão, sentou-se ao lado da cabeça da avó e foi logo dizendo o que tinha para o almoço: _ Olha vó, trouxe suco de laranja, salada de alface, arroz, feijão, hum que cheirinho, e o mais delicioso é esse bife a milaneza. A garota encostava a comida perto do nariz da senhora que faminta parecia estar gostando do cheiro, olhava com apetite. A menina misturou o arroz com o feijão e colocou uma colherada na boca avó. _ Engole vó, tá muito boa, espera, vou cortar um pedaço do bife. Ela foi enfiando comida até as bochechas vovó ficarem cheias. O cachorro já estava esperto sentado de olho no que caia no chão. _ Espera! Vou trazer um pano para limpar sua boca. A menina saiu correndo em direção a cozinha e o cachorro aproveitou para dar uma lambidinha no chão e no prato que ficou ao lado da cabeça da avó. Ao chegar na cozinha, a empregada estava secando a louça e ouvindo uma música no rádio. Cecília baixou o volume para falar com ela. _ Maria, Maria, consegue um paninho úmido? _ Prá quê tu queres um paninho úmido? _ É para limpar a vovó! _ A vovó está morta Cecília, que Deus a tenha! _ Maria, a vovó está lá fora com a boca toda suja, consegue logo esse paninho! _ Tu inventa moda com essa tua vó, onde que já se viu, dar comida prá gente morta, morto não come. _ É mais ela adorou teu bife a milaneza, e eu sei que foi ela que te ensinou a fazer. Me dá o paninho. _ Tá bem guria, toma esse aqui. Correndo afoita ela voltou com um paninho umedecido e passou no rosto da senhora que respirou aliviada. _ Bom né vó, uma comidinha caseira deliciosa, vamos tomar um suquinho agora. Ela coloca o suco nos lábios da velha e escorre, tudo pelos lados da boca. _ Deu prá sentir o gostinho, essa laranja é bem docinha, hum que cheirinho bom. A avó fez uma cara de felicidade com o sabor do suco fresquinho e gelado. Com o pano novamente a netinha secou a boca o queixo e o pescoço da vovó, pois tinha virado suco por tudo. _ V?, vou levar o prato, mais tarde vamos cuidar da beleza, ventou muito ontem, tu tá dura de poeira.

Nota da autora: Esta história pretende através de um realismo fantástico mostrar as estreitas relações de amor entre as gerações. Com ela quero homenagear Gabriel Garcia Marques, grande mestre da literatura latina, o qual adimiro e sou fã.

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