MUTANTE

 

 MUTANTE

 

          Em meu quarto tem uma grande janela, e sempre eu a abro para ver o dia e a

natureza renascendo. Naquela manhã percebi algo estranho movendo-se na floreira,

cheguei mais perto para saber o que era e pude ver uma lagarta transformando-se em

borboleta. Parecia estar sofrendo, então resolvi ajudá-lo. Peguei uma folha de papel que

serviu como maca e o removi para cima da minha mesa.

         Ele parecia bastante cansado de lutar por esta transformação. A princípio eu só

ob servei. Fazia um grande esforço para desvencilhar-se da sua antiga forma, dava até

medo de tocá-lo e estragar este processo.

          Afastei os objetos que estavam próximos e esperei para ver o que ia acontecer.

Quando estava concentrada olhando esta mutação, fui surprendida pela sua vóz, ele

falava com dificuldade: _ Obrigado por ter me ajudado. Eu incrédula respondi: _Não

precisa agradecer, você está bem? Você fala?

         Ele disse-me que era a terceira vez que se transformava, primeiro foi homem e,

depois foi um cachorro Chiwawa, mas sua dona era muito nervosa, ele não aguentou

estar na pele de um animalsinho tão neurótico. Por isso agora ele preferia ser uma

borboleta, mesmo que viva pouco, mas amará com intensidade as cores, as flores, as

folhas, a natureza, espalhará amor e vida.

          Quando ele terminou de contar esta história já estava sentindo-se melhor,

começava a bater as asas. O Tempo passou rápido, era quase meio dia e eu tinha que

descer, me esperavam para o almoço. Pedi a ele que não saísse assim tão fragilizado,

mas depois desisti, deixei-o fazer o que julgasse melhor.

          Quando voltei, ele brincavapelo meu quarto em pequenos vôos, pousava nos

diversos lugares trazendo a eles uma beleza especial. Era tão bom vê-lo. Estávamos

felizes juntos. Mas eu não podia ficar, precisava escolher uma roupa e sair; ele disse que

me ajudaria; então eu experimentei várias peças e ele dava sua opinião.

          Me arrumei e já estava pronta quando ele pediu para colocá-lo de volta na

floreira, ali poderia se alimentar melhor, eu concordei e fiz o que ele disse, mas

recomendei para ter cuidado, embora soubesse que estava tudo bem. No final da tarde

quando voltei, não o vi mais na floreira, procurei por todos os cantos do meu quarto e

não o encontrei. Deve ter voado, e eu já sentia saudades.

          Naquela noite deixei a janela aberta, esperando que talvez ele pudesse voltar,

adormeci com um livro na mão e a luz ligada. Pela manhã junto ao som dos pássaros,

senti uma leve carícia em meus lábios... era ele, passeava por todo o meu corpo

produzindo prazer e encantamento. Devagar acariciava meu rosto com sua asas

dizendo-me: _Eu voltei, eu estou bem, eu estou aqui!

          Sobre o meu corpo, transformou-se no homem da minha vida e fizemos amor...

depois dormimos abraçados. Mais tarde quando acordei, ele não estava deitado junto a

mim, olhei por toda a parte, não o encontrei... Mais uma vez ele foi embora, e minha

janela estará aberta amanhã pela manhã.

 

Nota da Autora: Fedor Dostoieviski autor russo é para mim quem mais conseguiu

expressar o quanto o ser humano tem capacidade de escolher mudar. Neste conto a

fantasia gera e cuida o amor.

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