A HERDEIRA

 

A HERDEIRA

Ele disse: _Preciso que você me acompanhe, tenho que lhe mostrar algo que é seu. Eu perguntei: _ Onde? _ Do outro lado deste mar. _ Vamos! Ao chegarmos onde ele quis levar-me pude ver uma vila antiga, com v?rias casas de veraneio. Eram chalés que em outra época deveriam emprestar charme ao lugar. Mas ali naquele momento eu só via sujeira, cheiro de esgoto e bichos da lama rastejando na areia cinzenta. Observando bem, as casas exibiam as vidraças quebradas e a pintura descascada pelo tempo e pelo vento. Então ele falou: _ Isso é seu, foi uma herança deixada para você, a praia, as casas, tome posse e ponha ordem nisso tudo. Eu olhei incrédula e dentro de uma das casas pude ver pessoas espiando atrás de uma cortina rasgada. E perguntei? _ Mora gente aí? _ São posseiros, invasores, você vai ter que tirá-los das casas. Olhando com mais atenção, pude perceber que em cada uma delas, havia alguém observando toda a nossa movimentação. Senti até medo ao ver aqueles olhares rudes, escondidos e amedrontados. Fui questionada: _ E então, o que você vai fazer? _ Eu não quero isto para mim, não aguento este cenário deprimente. _ Mas você não pode não querer, é seu, você tem que cuidar daqui, nem que precise procurar outras pessoas para lhe ajudar. Vem... está vendo aquele rio, atravesse-o, do outro lado você encontrará alguém que lhe dirá o que fazer. Era um rio largo que vinha do continente trazendo uma água escura e gelada, porém limpa. Na margem, uma velha conduzia uma pequena canoa para quem quisesse atravessar. Ela levou-me naquela correnteza forte. Quase viramos no meio do caminho, e do outro lado, uma mulher esperava-me e reclamava achando a velha pouco hábil na travessia. Quando chegamos, notei que elas conheciam-se, eram mãe e filha. A mulher pegou-me pela mão e levando-me em direção a praia, disse: _Venha lavar a alma, aqui a água é limpa! Mergulhei naquele mar e senti muita leveza, não poderia imaginar sensação igual quando estava no meio da sujeira, lá onde eu era herdeira do que não queria ter. Aos poucos, vi minhas roupas fluorecerem como as de um ser marítimo que vive nas profundezas. Saí do mar, mais forte, determinada, decidida a cuidar do que é meu, tomar, limpar, trazer de volta a vida, compreendi então a minha responsabilidade.

Nota da autora: Este conto tenta resgatar algumas das propostas para o próximo milênio lançadas pelo grande autor ítalo/cubano Ítalo Calvino, que tanto instigou o mundo e principalmente a itália, com suas estórias hiper realistas e encantadoras.

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